sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A DEPRESSÃO E O CASAL

Cada vez há mais pessoas com Depressão. Todos conhecem alguém com Depressão, seja esta moderada ou grave. O termo Depressão é, por vezes, usado de forma vulgar, como se não se tratasse de algo muito grave. Há pessoas que o usam erradamente quando se referem que só estão tristes. E há quem associe a: “ele(a) não quer é fazer nada”, “isso já passa”, “precisas é de trabalhar mais”, são comentários de desdém e de desvalorização e são sempre ditos por pessoas que nunca estiveram com Depressão.

O curioso é que estamos a falar de fortes sentimentos de tristeza, angustia, solidão, desamparo, dor, impotência, pensamentos suicidas e de um grande sofrimento emocional. É uma dor insuportável que não é visível aos outros e não tem recuperação rápida. Há pessoas que têm muita dificuldade em perceber genuinamente este sofrimento. Podem ser condescendentes e dizer que compreendem, mas continuam a achar que estar deprimido é apenas ser preguiçoso.

Esta falta de empatia pelo sofrimento do parceiro(a), tem implicações graves no casal, tanto ao nível sexual pela diminuição do desejo, como pelo comportamento de apatia, desmotivação, falta de iniciativa, não querer saber do que se passa à sua volta.

Começa a haver menos cumplicidade, a rotina passa a ser mais pesada, com tendência para haver mais conflito e afastamento. Casais que ao longo da relação não estimularam a amizade entre si, sentem maior dificuldade em cuidar e entender.

O cuidar é organizador para quem é cuidado mas também para quem cuida. Sendo organizador vai ajudar que os sintomas da Depressão sejam menos pesados e tenha um efeito mais tranquilizante. Os acontecimentos de vida positivos também ajudam a reduzir este sintomas, assim como a psicoterapia, a medicação e o amparo familiar são essenciais para o tratamento e cura da Depressão.  









A ANSIEDADE E AS CRISES DE PÂNICO

Tal como a Depressão, também a Ansiedade trás consequências para a relação conjugal e para todas a relações no geral. A Ansiedade a passo com a Depressão, são perturbações cada vez mais frequente:

Quem não sofre ou já não ouviu falar de alguém que sofre de Ansiedade?

A forma como a Ansiedade se manifesta depende muito de pessoa para pessoa, do modo como está estruturada emocionalmente. Os sintomas podem ser muito diferentes. Geralmente os mais valorizados são os físicos que levam à procura de um diagnostico para o que sentem e recorrem à realização de exames ao coração (palpitações, dor), ao estômago (enfartamento, vómitos), a garganta (dificuldade em engolir), a cabeça (dor intensa, vertigens), entre outros sintomas como a sudorese, sensação de desmaio, náuseas, perda de controlo, dificuldade de orientação espacial, pensamentos repetitivos e violentos. Estes são só alguns dos sintomas mais frequentes.

A crise de pânico é um pico de ansiedade generalizada e é descrita por muitos como uma sensação assustadora de perda de controlo. Muitas pessoas sentem que vão morrer, por isso, na maior parte das vezes que acontece a pessoa recorre ao hospital. É extremamente doloroso!

Frases como: “isso é psicológico!, não é nada, não ligues a isso!” São uma crença, ao dize-lo está a desvalorizar a dor e ainda acrescenta que a pessoa está a mentir ou não quer fazer nada para melhorar. Os sintomas são reais, a dor é real e só surgem porque emocionalmente ou psicologicamente há sofrimento. É o corpo, através de sintomas físicos que envia alertas: “Não estou bem, toma conta de mim”. Deve-se fazer exames clínicos para despiste.

Se é Ansiedade é importante perceber o que causa a agitação e a inquietação. É preciso identificar, elaborar e ultrapassar. Deve-se lembrar que a ansiedade tem sempre a ver com o momento a seguir, com o que vai acontecer seja a curto ou a médio prazo.

No casal pode ser também um motivo de conflito pelo não entendimento do outro e/ou pelo não querer saber. “Ele(a) só quer atenção!” Então dê atenção, mas dê atenção à pessoa e não ao sintoma.

AMPARE! DÊ COLO! CUIDE! 
As crises de Ansiedade têm cura.







ESCUTA ACTIVA


A escuta é muitas vezes mais importante do que a fala em terapia. Na realidade, a maior parte das formas de falar do psicoterapeuta e a postura que tem durante a sessão, destinam-se também a demonstrar que ele escuta / ouve. É uma das ferramentas mais importantes da relação terapêutica.

Em terapia escutamos com os ouvidos, com os olhos, com a postura, escutamos com todo o corpo. Mostramos ao outro que estamos a escuta-lo, que estamos atentos. Escutar é mais do que ouvir, é mais do que simplesmente escutar com o ouvido. 

Uma sessão terapêutica não é simplesmente uma conversa, uma vez que o psicoterapeuta está completamente envolvido no que está a acontecer, no outro. Escuta mais do que aquilo que fala, se não fizer uma boa escuta, terá uma maior dificuldade em perceber o paciente. É também através desta boa escuta que o psicoterapeuta faz uma boa leitura e análise do outro. 

É escutar para além do que a pessoa narra. Enquanto os amigos podem ouvir a mesma história, a forma como esta é escutada pelo psicoterapeuta é completamente diferente. Não se ouve apenas a história, mas também o que a pessoa está a dizer para além da história. As emoções, vivências, impacto que teve e tudo o que envolva o narrador. 

Metaforicamente é como se a imagem do(a) psicoterapeuta fosse todo ele um ouvido com uns olhos muito grandes, para captar o som e a imagem de tudo o que está a acontecer. Nesta imagem surgem os braços para conter as coisas do outro.




  COLO EMOCIONAL


O psicoterapeuta cria um espaço ao outro para que este possa colocar as suas coisas sem que seja sentido por ele como abusivo ou invasivo. Há todo um processo livre de “vir e ir” do próprio paciente, o psicoterapeuta não interfere com pressão, mas sim com as técnicas de intervenção terapêuticas adequadas ao momento.

Contenção ou o colo emocional é conter a emoção do outro.  É ouvir / escutar a experiência do outro, é ser contentor do seu sentir, e pode ser feito através do traduzir, ler e/ou devolver a mensagem.  A representação física deste conter seria como se os braços estivessem esticados e abertos de forma a podermos conter, mas ao mesmo tempo deixar ir, permitindo um movimento dinâmico de entrada e saída. 

Onde o paciente “vem”, “senta”, “conta” e “vai”. Por exemplo, o paciente ao contar uma situação expressa uma emoção do que está a vivenciar, e do que está a sentir no momento. A forma como este sente que isto está a acontecer, é como se lhe dissessemos: “Pode continuar que eu estou cá para si”. 


quinta-feira, 16 de julho de 2015

A FAMILIA E AS REDES SOCIAIS


Apetece-me contar uma historia. A historia de uma gata chamada Nina. Nina é muito observadora, o que mais gosta de fazer é andar pelas ruas, de janela em janela à procura de famílias. Gosta de observar famílias, apesar de não perceber muito bem como funciona a relação entre os humanos, sente dificuldade em perceber como se relacionam. É uma gata muito DaDa, gosta muito de cuidar das pessoas.

Uma das famílias que mais gosta de observar, é um casal com dois filhos adolescentes. A Nina repara no que fazem, gosta de os ver a trabalhar em equipa, cada um cumpre as suas tarefas, os filhos por vezes tem de ser ajudados para conseguirem alcançar os objectivos, mas cumprem. É uma família onde se fala pouco, discute-se pouco. Tudo corre bem. Todos estão nos seus quartos ocupados com os seus smartphones, tablets e computadores.

É uma família funcional. Contudo, Nina sente alguma estranheza, e por isso, decidiu ficar mais tempo com a mesma família, até que chegou a hora do jantar. Com alguma resistência lá se sentaram todos à mesa em frente à televisão para ver as noticias ou até mesmo uma série. Os telemóveis estão em cima da mesa, de que fazem parte, como se fossem talheres.

Estão todos juntos, focados na tv ou nas redes sociais, não se ouve nada, as refeições são feitas em silêncio. “O importante é que estamos todos juntos” diria um deles. Será que estão? perguntaria a Nina, pois esta acha que as refeições são o momento privilegiado do dia para a família estar unida e para falar sobre o dia. É um momento de partilha e de escuta, seja da parte dos filhos, seja da parte do casal/pais.

A Nina fica triste por ver tantas famílias tão pouco unidas, com tão pouca proximidade e nenhuma cumplicidade. Mas continuou a acompanhar a família, desta vez ao restaurante. Enquanto o pai conduzia, os irmãos e a mãe passavam os olhos pelas noticias das redes sociais. Escolheram aquele restaurante por ter televisão. Sentaram-se à sua frente para poderem acompanhar o futebol ao mesmo tempo que jantavam, tiravam selfies e publicavam nas redes sociais. Estão lá fisicamente, estão juntos, mas ao mesmo tempo estão mais sós do que a Nina.

O mais curioso para a Nina foi perceber que cada vez há mais humanos a sofrer com solidão. Parece que nunca estão sozinhos, mas nunca estão é em relação.

Foi observado por uma gata. Imagine o que os humanos poderiam mudar se quisessem mesmo observar e pensar na gravidade e nas consequências sérias deste tipo de comportamento que é permitido em família e promovido pela família.

Não deixe. Promova a RELAÇÃO.

sexta-feira, 27 de março de 2015

A FAMÍLIA E O TPC




A dinâmica das famílias no seu dia-a-dia gira muito à volta das tarefas/ actividades dos seus filhotes, nomeadamente os TPC`s. Esta exigência começa logo no jardim de infância com pequenas tarefas. A partir do 1º ano do ciclo começa a haver um aumento de exercícios para fazer em casa, sendo que no 2º ciclo estes são multiplicados pelo número de disciplinas.  

Segundo alguns professores deve haver muito treino, quanto mais praticarem, mais treinarem, mais rapidamente adquirem conhecimentos, mais rápido aprendem e evoluem na aquisição dos conhecimentos exigidos pelos programas escolares. De facto, o treino é uma boa forma para aprender. Mas também sabemos que não se consegue estar sempre a aprender. Oiço pais a queixarem-se da falta de tempo para fazer outras coisas com filhos: “devem achar que os meus filhos não tem vida para alem da escola! Os meus filhos e eu, por vezes são horas de volta dos trabalhos de casa”.

E isto porque alguém disse que era importante a criança treinar muito para aprender e envolver os pais nos estudos. O que acontece quando a criança esta cansada, não quer mais, já chegou o dia de aulas, assim como também já chegou aos pais o dia de trabalho? Estão ambos exaustos, pouco disponíveis para mais obrigações. Surge o conflito. Todos já ouviram dizer: “o final do dia é sempre cheio de birras/ conflito por causa deles não quererem estudar” e aos adultos apetece continuar a trabalhar no mesmo?

É um abuso os adultos sobrecarregarem os seus filhos com a mesma agenda pesadíssima. Parece que por vezes o único pensamento dos pais e professores é: “tens de ser melhor”. Mas o principal é a criança perceber que os pequenos sucessos são valorizados e não ouvir: “Isso não é nada tu consegues melhor, tens de trabalhar mais”, são os pequenos suficientes que dão confiança e segurança para conseguir fazer melhor.

Porque não propor aos pais e professores, como TPC para as crianças, ir com a família ver exposições, peças de teatro, filmes, series, documentários ou ate mesmo sites com respectivas temática da matéria que esta a ser dada na aula. Seria uma forma de envolver a família e aprender de modo mais divertido, produtivo e prazeroso.

É trocar o conflito, a discussão “já vou” e o stress dos TPC´s em algo lúdico e bom. É criar uma dinâmica divertida e tranquila de final do dia em que todos ganham e aprendem que APRENDER EM FAMÍLIA É MUITO BOM.

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Crise e Nós

Estamos a viver numa época em que palavras como ‘crise’ e ‘dinheiro’ estão sempre presentes. Inevitavelmente o dinheiro é um dos motes que traz conflito ao casal. É um dos principais motivos de desentendimento do casal e das famílias. A gestão e a relação que o casal tem com o dinheiro é extremamente importante para uma relação saudável.

As pessoas necessitam de coisas diferentes, mas por vezes não entendem que o cônjuge gaste em coisas que para essa mesma pessoa eram desnecessárias. A importância que cada um dá àquilo que não precisa. Recordo um casal que discutia com frequência. Enquanto ela gastava cem euros em produtos de cosmética, ele não aceitava porque não era prioritário, por outro lado ele gastava mil euros na compra de material de informática que para ela também não era prioritário. Como não entendiam, discutiam sobre quem gastou mais ou menos.

Na gestão dos gastos deve haver controlo de ambos, não se deve retirar ao que pertence à gestão da casa e da família. Quando se passa para além daquilo que é possível gastar, e se gasta mesmo assim, então falamos de descontrolo e o conflito aumenta. Surge a mentira, no princípio só para evitar o conflito, depois passa a ser uma prática e a desconfiança instala-se. A relação começa aproximar-se do caos. 

Pode haver desequilíbrio na relação devido a quem gasta mais e quem gasta menos. Quem ganha mais e quem ganha menos. Quem controla mais e quem controla menos. As pessoas contabilizam o que o outro faz ou não. São estas “contas” que levam a acusações como: “Tu estás sempre a gastar”, “eu poupo mas tu não consegues deixar de comprar coisas que não prestam para nada”. Em alguns casais é muito fácil passar desta troca de acusações para agressões. 

Mais uma vez a empatia e a comunicação entre o casal são de extrema importância para reencontrar o equilíbrio dentro do desequilíbrio que a nossa sociedade atualmente vive.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

SOCORRO! TENHO UM BEBÉ


“Não aguento mais”, “quero a minha vida de volta” ou “preciso de espaço” são expressões de desespero, comuns a muitos casais que são pais há pouco tempo. Quando acontecem, é importante falar sobre estes sentimentos que são frequentes e normais. Algumas pessoas acham que só lhes acontecem a elas, ou que só elas se sentem de determinado modo. É comum numa primeira fase sentir desespero, exaustão, tristeza, alegria, um misto de emoções.


Ser pai, seja pela primeira, segunda ou mesmo terceira vez é sempre difícil para o casal. Por ser uma nova fase com mudanças que passam por adaptar, ajustar, aceitar e tolerar. E como em todas as mudanças, é preciso tempo e paciência para se encontrar um novo equilíbrio. 

Alguns casais tentam considerar antes da chegada do bebé o que vai mudar no “nós”. No entanto, é mais fácil sentir segurança quanto a decisões sobre aspetos práticos como a cor do quarto do bébé, ou a escolha do pediatra, do que antecipar de que forma o “nós” se vai “aguentar”. 

Quando o casal está preparado, não só para receber o novo membro, mas também para refazer a rotina; quando os filhos são pensados, desejados; quando há preparação para a mudança de estilos de vida, para formas de estar diferentes daquelas adotadas até aí; quando tudo isto acontece, torna-se muito mais fácil ao casal manter a cumplicidade. 

A incapacidade de mudar, e os ajustes necessários neste ciclo de vida levam muitos casais à ruptura. Estatisticamente há um maior número de divórcios logo após o nascimento dos filhos. 

Esta fase é tão desgastante para o casal, há tão pouca disponibilidade e ambos estão tão cansados, que se esquecem de cuidar do “nós”. Por um lado, quer-se mais, exige-se mais, e por outro consegue-se dar tão pouco. Cada um necessita, exige, que o outro seja mais tolerante, quando o próprio não o consegue ser. 

É quando conseguem parar para se escutarem, que se conseguem tornar mais cúmplices. E mais fácil se torna passar esta fase. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

E AGORA...COMO É QUE VAI SER!


A notícia “estou grávida”, geralmente é acolhida de forma ambivalente: “que bom, estamos tão felizes” e/ou “e agora como vai ser?”. São meses de ansiedade, angústia e alegria. 

Os dias e os meses são direcionados para a chegada do rebento. Geralmente os 9 meses são aproveitados para preparar o parto e tudo que tenha a ver com a chegada do novo membro. Devem ser também usados na preparação do casal para a mudança do estilo de vida até ai adotado. Muitos casais queixam-se, “nunca pensei que fosse mexer com tantos aspectos da nossa vida”; “Deixamos de ter vida”.


Existem mães que criam uma relação especial com a barriga/sementinha. Ao contrário do que por vezes o pai sente (que não há espaço para ele dentro desta relação privilegiada), ele pode e deve ter um papel fundamental. Também pode estar “grávido”. 

O pai não deve ficar de fora da relação mãe/bebé. A gravidez deve ser vivida por ambos. 

Questões ligadas à sexualidade do casal também são frequentes na gravidez. Surgem o conflito, as dúvidas e os medos, que devem ser esclarecidos através de um médico, de um especialista ou de amigos. Estas queixas podem ser “estou a fazer mal ao bebé” ou “não consigo envolver-me sexualmente com a mãe do meu filho, porque já não a consigo ver como mulher mas sim como uma mãe”, entre outras. 

A sexualidade deve ser vivida de forma confortável para o casal, sem que o medo ou preconceito surjam em momentos que devem ser de prazer. 

Mais uma vez o casal deve conversar sobre o que está acontecer e o que sente. A partilha de pensamentos e sentimentos aproxima-o e ajuda a ultrapassar os momentos difíceis.

domingo, 28 de outubro de 2012

OS FILHOS


Porque que é que a maioria dos filhos, apesar de serem desejados, não são pensados? 

Quando um filho é planeado pelo casal, é pela ambição que ambos têm em ser pais, e o bebé é normalmente pensado, idealizado. É a complementaridade da família, a continuidade da mesma. 

Por vezes, este bebé surge só porque sim. Porque é o passo a seguir ao casamento. Não há lugar para amadurecer, o bebé não é pensado.


Existe também a pressão familiar e social, que leva muitos casais a apressarem-se: “Quando é que vem?”, “Ainda não estas grávida?”. Mesmo sem sentir essa necessidade e sem estarem preparados, a influência faz com que reajam. 

Também a idade é um fator de tensão. Hoje cada vez se casa mais tarde, a mulher sente a pressão dos anos a passar e a urgência da maternidade torna-se cada vez maior. Levados por “já não temos muito tempo”, a chegada do bebé passa a ser um sofrimento para o casal, que perde a disponibilidade para pensar. 

Os imprevistos também acontecem, e quando a decisão de o ter é ponderada e amadurecida e este bebé torna-se desejado e pensado. 

Cada vez há mais casais que não querem ter filhos. É uma opção, uma decisão tão legitima como a de querer. Contudo, por regra, são casais incompreendidos por parte das pessoas que os rodeiam. São estigmatizados e pouco respeitados até que seja aceite a sua opção. Nem todas as pessoas nasceram para ser bons pais, escolhem outros projetos e percursos em que sentem serem mais capazes, e em que terão mais sucesso. 

São de louvar os casais que fazem uma escolha acertada para si próprios, seja essa a de ter ou não ter filhos. É uma grande responsabilidade ser pai ou mãe. É preciso estar preparado para ceder, abdicar, ajustar e, principalmente, cuidar. Isto só é possível quando o casal cresceu e amadureceu em conjunto e se sente disponível para a chegada de um novo elemento que vai ocupar o espaço não só do casal como também o de cada um.

11 Junho 2012 

Publicado em: www.revistadada.com

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012



A DOIS...

Com a chegada do Outono, do frio, apetece mais recolher, procurar locais fechados. Essa procura também pode ser feita de forma cultural e a dois.

Sair a dois. 
Os casais saiem pouco sozinhos, saiem mais com os filhos, em família ou com outros casais amigos. Acabam por ter pouca disponibilidade para o “nós”, para namorar, para alimentar a relação.

Porque não ir ao teatro? Está em exibição uma peça de Ingmar Bergman “Cenas da vida conjugal”, e uma outra que já saiu de cena mas regressa com alguma frequência de Rob Becker: “Caveman”. 

São duas peças que aconselho, e que podem ser uma boa forma de promover uma conversa sobre a relação. A identificação com algumas das cenas pode levar o casal a falar sobre alguns aspectos, que por serem dolorosos, são normalmente evitados.
É também uma boa forma dos casais perceberem que algumas situações não acontecem só a eles. Acontecem também a muitos outros, de modo muito semelhante, em determinada fase do ciclo de vida do casal. Fazem parte. 

"Cenas da vida conjugal" é uma excelente peça, mais séria que "Caveman", mas também com algum sentido de humor. É uma história sobre a vida de um casal com dois filhos, que se desenrola em volta das problemáticas conhecidas por uma grande parte dos casais. A confiança, autenticidade, fidelidade, amor, amizade, afectos, o materialismo, são exemplos de valores que são espelhados durante duas horas de forma muito intensa, que leva à identificação e a uma maior compreensão do outro e das relações. 

"Caveman" pelo seu lado, é um delicioso monólogo, onde são expostas as diferenças entre o homem e a mulher de forma divertida. É sobre aqueles pequenos aspectos que são tão próprios de cada um, e que muitas vezes leva ao conflito por dificuldade em perceber o outro. Porque não rir das próprias dificuldades e levá-las para a relação de forma positiva e com sentido de humor?
Saiam!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

AS DISCUSSÕES


Não existe um manual para a discussão perfeita. Quando uma discussão acontece é porque uma parte (ou ambas) não está satisfeita, sente-se magoada/o ou zangada/o. É comum a zanga ou a mágoa surgir por má perceção da situação ou da atitude do outro. Só quando se consegue escutar é que, na maior parte das vezes, fica claro que houve uma má interpretação do outro ou nossa que deu origem à discussão.

É muito fácil começar por contrapor: “a culpa é tua”, “mas tu também fizeste...”, ou “tu fizeste primeiro...”. É o caminho ideal para a agressão mútua, tornando-se a comunicação num tiroteio cruzado, em que cada um culpa o outro pelas coisas que deveria ter feito ou dito. A meio do tiroteio deixam de se ouvir e passam a estar mais centrados em magoar. Altura em que as balas passam a granadas. Não há espaço para o entendimento do outro. Só zanga e raiva.

Quando, ao contrário, se começa por explicar a forma como foi compreendida determinada atitude do outro e como a mesma nos magoou, evita-se chegar à troca das granadas, pois iniciar assim dá espaço para que o outro explique porque o fez ou disse.

Expressões como: “Eu percebi que...”, “Quando disseste aquilo senti-me magoado”, “Não percebi porque...”, “Explica-me porquê...”, dá lugar a que cada um fale sem atropelar o outro.
Conseguir ouvir, sem disparos de parte a parte, os motivos e as justificações, é o passo fundamental para entender o que motivou a discussão. Podem assim conversar e evitar que volte a ocorrer.

A zanga pode ser boa, pois só nos zangamos com quem é importante! A zanga também é um sinal de investimento na relação, quando se é capaz de a utilizar de maneira positiva para melhorar a relação e não para atacar gratuitamente o outro.

Saber escutar pacientemente o que o outro tem para nos dizer é a melhor forma de discutir. E quando se escuta, normalmente surgem surpresas agradáveis. Escutem.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012


O REGRESSO


As férias são sinónimo de descontração, divertimento, de não fazer e não pensar em nada... repor energias para mais um ano. Que bom seria se todos o conseguissem! 

Férias é fugir à rotina, ao desassossego do dia à dia, parar, ter disponibilidade para olhar um para o outro, para tirar partido um do outro.


Para o casal é tempo de sedução e enamoramento, quando conseguem conjugar as dificuldades com o amor. E quando assim acontece percebe-se que é uma relação mais estável e prazerosa. 

As férias são uma boa altura para gerar partilhas e cumplicidades. E contudo também o estar muito tempo só a dois pode gerar a ansiedade de estarem sós, em que as diferenças entre ambos se tornam demasiado evidentes e promovem o conflito. 

A dificuldade em estarem sós é o reflexo do que o casal tem vivido ou do que se tem esquecido de viver. Pode ser o confronto com o “eu não quero isto, não quero esta pessoa, não quero esta relação”. 

O regresso das férias leva muitos casais a pensar na rutura, muitos separam-se, enquanto outros procuram ajuda na terapia de casal. É uma das épocas do ano em que há uma maior procura de terapia, onde, com a ajuda de um especialista, repensam a relação e tentam encontrar novas formas de estar. 

O regresso de férias pode ser um recomeço, um tempo para, a dois, se melhorar o que já se tem. É uma boa altura para pensar em mudar, em fazer escolhas e tomar opções. 

O que aconteceu durante as férias, sejam as zangas, os conflitos, as discussões, as cumplicidades, os afetos e as partilhas, deve ser refletido de modo a melhorar a relação. Ou a que cada um se sinta melhor, seja com ou sem relação. Mais uma vez, conversar a dois sobre o que cada um sente e o que pode fazer para alterar ou melhorar a relação faz com que haja crescimento e maturidade no Nós. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

AMIZADE

Uma grande parte dos casais era muito amigo enquanto namorados. Partilhavam, faziam confidências, contavam segredos, criaram laços, cumplicidades que os levaram a querer ficar juntos. A razão pela qual esta amizade deixa de ter lugar no Nós, deveria ser discutida, pensada pelo casal. Procurar saber o que aconteceu e como a recuperar.

Uma das razões pode ter a ver com a rotina, onde só entra a gestão dos filhos, da casa, do trabalho, muitas vezes não deixando espaço para mais nada. Partilhar aspetos pessoais, perguntar “como correu o teu dia?” porque se quer saber mais sobre a vida da pessoa de quem se gosta, fazem parte da amizade. 


Um casal referiu que tinha uma regra. Quando chegavam a casa, deixavam o trabalho e as preocupações inerentes à porta de casa. “Não levamos o trabalho para casa”. Achei interessante, e ao refletirmos sobre isso descobrimos que, como o sitio onde ambos passavam mais tempo durante o dia, era exatamente no local de trabalho, restando pouco tempo para outras atividades, então se não podiam falar sobre o trabalho tinham pouco para partilhar. Na realidade o que não queriam era chegar a casa zangados e descarregar um no outro. Poder falar sobre o que aconteceu profissionalmente, de bom ou de mau, pedir opiniões ou ser simplesmente ouvido é tão bom que se consegue passar o resto da noite mais envolvido com a família. 


Outro dos aspetos que também pode levar ao “desaparecimento” da amizade é a falta de confiança, a exigência e a critica por parte do parceiro: “Antes gostava de contar, ouvia-me e gostava dos conselhos, agora acha sempre que eu podia fazer diferente, critica e não me entende”. O esperar que o outro seja perfeito, que faça tudo bem, leva a desilusão e ao afastamento. Quando não se é ouvido, não apetece partilhar. Escute mais e deixe acontecer! 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

PORQUE NÃO....


O PRIMEIRO ANO


Quando se casa ou se vai viver maritalmente surgem muitas expectativas e fantasias boas. O facto de estarmos enamorados, apaixonados, faz acreditar que o futuro a dois será fácil e para sempre.

A nova casa significa o partilhar, o juntar de “coisas”, objetos, educação, valores, vivencias e personalidades. É esta adaptação que torna os primeiros meses por vezes tão difíceis. É quando há o confronto entre o que é meu, e o que é teu. É quando começamos a formar o que é nosso. Podem ser meses complicados, e a frustração e a desilusão podem aumentar o conflito. É normal sentir estas emoções, fazem parte do amadurecimento do casal. 

Por exemplo a gestão da casa tem a ver com os hábitos da família de origem. Dizer: “a comida da minha mãe é melhor” ou “o meu pai não deixa a roupa espalhada pela casa”, acentuam as diferenças. Cada um leva os seus hábitos para a nova casa esperando que o outro os adote. No entanto, estão a criar uma nova família.

É comum uma das partes ceder para evitar o conflito. Se a cedência for razoável e não trouxer zanga, ótimo. A minha experiencia clínica mostra, contudo, que a zanga vem depois. “Cedi tanto e não fui compensado(a)”. Este sentimento de zanga e injustiça acaba sempre por surgir numa discussão. O mais saudável e equilibrado é a cedência de ambos. Ambos têm que ajustar o que trazem de cada família e o que querem para a sua. 

Num casal uma parte estava habituada a dormir com o estore aberto, a outra só conseguia dormir com o estore completamente fechado. Como era mais fácil habituar-se a dormir com tudo às escuras foi a primeira que cedeu. Porém para esta era insuportável dormir sem que o lençol estivesse bem dobrado, e a outra cedeu também. Conseguiram ajustar a forma como dormem juntos. Este ajustamento só é possível conversando sobre as diferenças, percebendo o que é melhor para NÓS. Quando nenhum dos lados cede seguem-se meses de divergências, de conflito e de sofrimento, o que leva, muitas vezes, à implicância, à zanga e à rutura. São as “pequenas coisas” geridas pelo casal através da divisão de responsabilidades, partilhas, cedências e tolerância que tornam a relação mais saudável. Tentem.

07 Fevereiro 2012 

Publicado em: www.revistadada.com

CUIDAR

Quando penso na capacidade que as pessoas têm para cuidar e serem cuidadas na relação, vem-me a imagem do gato de barriga para cima. Ao contrario do cão, não é comum os gatos colocarem-se nesta posição, a de receber.

Faz pensar, não é! Porque será que só com algumas pessoas os gatos se põem de barriga para cima? Se permitem ser cuidados e mimados? Porque precisam de se sentir seguros e, acima de tudo, confiar que essas pessoas não lhe vão fazer mal.
Curiosamente, acho que o mesmo acontece com algumas pessoas. Pedem que cuidem, que as mimem, exigem-no, e zangam-se quando não o são. Será que se põem a jeito? Será que se põem de barriga para cima?
Por vezes a forma como se pede não é coerente com a postura, como os gatos fazem com algumas pessoas. Fazem ronrom, vão para perto da pessoa, e quando esta decide fazer mimos fogem, ou até deixam com desconfiança, mas estão prontos a fugir.
Faz-me lembrar um casal que funcionava muito bem na gestão dos aspetos práticos da casa e dos filhos, mas entre eles não se cuidavam. Os papeis estavam atribuídos, bem definidos, cada um sabia muito bem o que tinha que fazer, e desempenhava esse papel sem a ajuda do outro. Quando era necessário ajuda para além disso, não o faziam, porque a tarefa não era da sua responsabilidade: era sempre ele quem conduzia. Numa ida para a terapia, ele estava muito cansado e com sono, e pediu à sua mulher que conduzisse por ele. Mas como isso não fazia parte das suas tarefas ela não o fez e entraram em conflito.
Ele pôs-se a jeito de ser cuidado, mas na relação não havia amizade e confiança suficiente para cuidarem um do outro.
A importância da amizade, da partilha, da confiança, da segurança e conforto que o outro nos transmite, faz com que saiba tão bem colocarmo-nos de barriga para cima e ronronar. Parece tão fácil, não é? 

05 Dezembro 2011
Publicada em: www.revistadada.com

1+1=3


A equação não é minha e matematicamente não é possível. Contudo quando falamos de relações amorosas é disso que falamos. Eu+Tu=Nós, como elementos distintos mas tão necessários de ter em atenção para uma relação saudável.


A ideia de “viver feliz para sempre” faz com que o casamento seja visto como o fim e não o início de um percurso a dois. Para conseguir ultrapassar as dificuldades do dia a dia é imprescindível que o casal invista no “nós”. Este aspeto é um dos mais importantes para o enriquecimento da união. 

Não encontrar ou perder o “nós” leva muitas vezes ao conflito, à infidelidade e ao divórcio. A procura deste equilíbrio leva, por outro lado, muitos casais à terapia.

Cada um entende que pode negar, confirmar ou transformar o outro. Como um paciente disse: “Agora que consegui que ela mudasse (após dez anos de discussão), é que me apercebi que estava apaixonado pelo que ela era, e não por aquilo que eu quis que se tornasse”. Curioso não é? Os casais gastam tanto tempo a criticar e a querer mudar o outro que se esquecem de que se enamoraram por aquela pessoa. Querem que o outro se torne mais parecido consigo e não valorizam as diferenças pelas quais se sentem atraídos.

Para que surja um “nós” é necessário que haja dois “eus”. Maduros, que discutam, se zanguem, reclamem, refilem, conversem e façam as pazes. O processo de procura do “nós” é recheado de confusões, desilusões e desentendimentos. É descobrir a dois, é errar a dois, é principalmente crescer a dois, na relação e individualmente. 

Em consultório, um casal confrontado com o “onde anda o nós”, fica surpreendido. Tinham entrado num ciclo vicioso de apontar o dedo um ao outro, ao que cada um queria individualmente, que se esqueceram do que ambos tanto queriam: O Nós.

É através da descoberta de cada um e do “Nós” que se inicia a caminhada a dois para uma relação segura e gratificante. 

11 Novembro 2011 

Publicada em: www.revistadada.com