domingo, 28 de outubro de 2012

OS FILHOS


Porque que é que a maioria dos filhos, apesar de serem desejados, não são pensados? 

Quando um filho é planeado pelo casal, é pela ambição que ambos têm em ser pais, e o bebé é normalmente pensado, idealizado. É a complementaridade da família, a continuidade da mesma. 

Por vezes, este bebé surge só porque sim. Porque é o passo a seguir ao casamento. Não há lugar para amadurecer, o bebé não é pensado.


Existe também a pressão familiar e social, que leva muitos casais a apressarem-se: “Quando é que vem?”, “Ainda não estas grávida?”. Mesmo sem sentir essa necessidade e sem estarem preparados, a influência faz com que reajam. 

Também a idade é um fator de tensão. Hoje cada vez se casa mais tarde, a mulher sente a pressão dos anos a passar e a urgência da maternidade torna-se cada vez maior. Levados por “já não temos muito tempo”, a chegada do bebé passa a ser um sofrimento para o casal, que perde a disponibilidade para pensar. 

Os imprevistos também acontecem, e quando a decisão de o ter é ponderada e amadurecida e este bebé torna-se desejado e pensado. 

Cada vez há mais casais que não querem ter filhos. É uma opção, uma decisão tão legitima como a de querer. Contudo, por regra, são casais incompreendidos por parte das pessoas que os rodeiam. São estigmatizados e pouco respeitados até que seja aceite a sua opção. Nem todas as pessoas nasceram para ser bons pais, escolhem outros projetos e percursos em que sentem serem mais capazes, e em que terão mais sucesso. 

São de louvar os casais que fazem uma escolha acertada para si próprios, seja essa a de ter ou não ter filhos. É uma grande responsabilidade ser pai ou mãe. É preciso estar preparado para ceder, abdicar, ajustar e, principalmente, cuidar. Isto só é possível quando o casal cresceu e amadureceu em conjunto e se sente disponível para a chegada de um novo elemento que vai ocupar o espaço não só do casal como também o de cada um.

11 Junho 2012 

Publicado em: www.revistadada.com

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012



A DOIS...

Com a chegada do Outono, do frio, apetece mais recolher, procurar locais fechados. Essa procura também pode ser feita de forma cultural e a dois.

Sair a dois. 
Os casais saiem pouco sozinhos, saiem mais com os filhos, em família ou com outros casais amigos. Acabam por ter pouca disponibilidade para o “nós”, para namorar, para alimentar a relação.

Porque não ir ao teatro? Está em exibição uma peça de Ingmar Bergman “Cenas da vida conjugal”, e uma outra que já saiu de cena mas regressa com alguma frequência de Rob Becker: “Caveman”. 

São duas peças que aconselho, e que podem ser uma boa forma de promover uma conversa sobre a relação. A identificação com algumas das cenas pode levar o casal a falar sobre alguns aspectos, que por serem dolorosos, são normalmente evitados.
É também uma boa forma dos casais perceberem que algumas situações não acontecem só a eles. Acontecem também a muitos outros, de modo muito semelhante, em determinada fase do ciclo de vida do casal. Fazem parte. 

"Cenas da vida conjugal" é uma excelente peça, mais séria que "Caveman", mas também com algum sentido de humor. É uma história sobre a vida de um casal com dois filhos, que se desenrola em volta das problemáticas conhecidas por uma grande parte dos casais. A confiança, autenticidade, fidelidade, amor, amizade, afectos, o materialismo, são exemplos de valores que são espelhados durante duas horas de forma muito intensa, que leva à identificação e a uma maior compreensão do outro e das relações. 

"Caveman" pelo seu lado, é um delicioso monólogo, onde são expostas as diferenças entre o homem e a mulher de forma divertida. É sobre aqueles pequenos aspectos que são tão próprios de cada um, e que muitas vezes leva ao conflito por dificuldade em perceber o outro. Porque não rir das próprias dificuldades e levá-las para a relação de forma positiva e com sentido de humor?
Saiam!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

AS DISCUSSÕES


Não existe um manual para a discussão perfeita. Quando uma discussão acontece é porque uma parte (ou ambas) não está satisfeita, sente-se magoada/o ou zangada/o. É comum a zanga ou a mágoa surgir por má perceção da situação ou da atitude do outro. Só quando se consegue escutar é que, na maior parte das vezes, fica claro que houve uma má interpretação do outro ou nossa que deu origem à discussão.

É muito fácil começar por contrapor: “a culpa é tua”, “mas tu também fizeste...”, ou “tu fizeste primeiro...”. É o caminho ideal para a agressão mútua, tornando-se a comunicação num tiroteio cruzado, em que cada um culpa o outro pelas coisas que deveria ter feito ou dito. A meio do tiroteio deixam de se ouvir e passam a estar mais centrados em magoar. Altura em que as balas passam a granadas. Não há espaço para o entendimento do outro. Só zanga e raiva.

Quando, ao contrário, se começa por explicar a forma como foi compreendida determinada atitude do outro e como a mesma nos magoou, evita-se chegar à troca das granadas, pois iniciar assim dá espaço para que o outro explique porque o fez ou disse.

Expressões como: “Eu percebi que...”, “Quando disseste aquilo senti-me magoado”, “Não percebi porque...”, “Explica-me porquê...”, dá lugar a que cada um fale sem atropelar o outro.
Conseguir ouvir, sem disparos de parte a parte, os motivos e as justificações, é o passo fundamental para entender o que motivou a discussão. Podem assim conversar e evitar que volte a ocorrer.

A zanga pode ser boa, pois só nos zangamos com quem é importante! A zanga também é um sinal de investimento na relação, quando se é capaz de a utilizar de maneira positiva para melhorar a relação e não para atacar gratuitamente o outro.

Saber escutar pacientemente o que o outro tem para nos dizer é a melhor forma de discutir. E quando se escuta, normalmente surgem surpresas agradáveis. Escutem.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012


O REGRESSO


As férias são sinónimo de descontração, divertimento, de não fazer e não pensar em nada... repor energias para mais um ano. Que bom seria se todos o conseguissem! 

Férias é fugir à rotina, ao desassossego do dia à dia, parar, ter disponibilidade para olhar um para o outro, para tirar partido um do outro.


Para o casal é tempo de sedução e enamoramento, quando conseguem conjugar as dificuldades com o amor. E quando assim acontece percebe-se que é uma relação mais estável e prazerosa. 

As férias são uma boa altura para gerar partilhas e cumplicidades. E contudo também o estar muito tempo só a dois pode gerar a ansiedade de estarem sós, em que as diferenças entre ambos se tornam demasiado evidentes e promovem o conflito. 

A dificuldade em estarem sós é o reflexo do que o casal tem vivido ou do que se tem esquecido de viver. Pode ser o confronto com o “eu não quero isto, não quero esta pessoa, não quero esta relação”. 

O regresso das férias leva muitos casais a pensar na rutura, muitos separam-se, enquanto outros procuram ajuda na terapia de casal. É uma das épocas do ano em que há uma maior procura de terapia, onde, com a ajuda de um especialista, repensam a relação e tentam encontrar novas formas de estar. 

O regresso de férias pode ser um recomeço, um tempo para, a dois, se melhorar o que já se tem. É uma boa altura para pensar em mudar, em fazer escolhas e tomar opções. 

O que aconteceu durante as férias, sejam as zangas, os conflitos, as discussões, as cumplicidades, os afetos e as partilhas, deve ser refletido de modo a melhorar a relação. Ou a que cada um se sinta melhor, seja com ou sem relação. Mais uma vez, conversar a dois sobre o que cada um sente e o que pode fazer para alterar ou melhorar a relação faz com que haja crescimento e maturidade no Nós. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

AMIZADE

Uma grande parte dos casais era muito amigo enquanto namorados. Partilhavam, faziam confidências, contavam segredos, criaram laços, cumplicidades que os levaram a querer ficar juntos. A razão pela qual esta amizade deixa de ter lugar no Nós, deveria ser discutida, pensada pelo casal. Procurar saber o que aconteceu e como a recuperar.

Uma das razões pode ter a ver com a rotina, onde só entra a gestão dos filhos, da casa, do trabalho, muitas vezes não deixando espaço para mais nada. Partilhar aspetos pessoais, perguntar “como correu o teu dia?” porque se quer saber mais sobre a vida da pessoa de quem se gosta, fazem parte da amizade. 


Um casal referiu que tinha uma regra. Quando chegavam a casa, deixavam o trabalho e as preocupações inerentes à porta de casa. “Não levamos o trabalho para casa”. Achei interessante, e ao refletirmos sobre isso descobrimos que, como o sitio onde ambos passavam mais tempo durante o dia, era exatamente no local de trabalho, restando pouco tempo para outras atividades, então se não podiam falar sobre o trabalho tinham pouco para partilhar. Na realidade o que não queriam era chegar a casa zangados e descarregar um no outro. Poder falar sobre o que aconteceu profissionalmente, de bom ou de mau, pedir opiniões ou ser simplesmente ouvido é tão bom que se consegue passar o resto da noite mais envolvido com a família. 


Outro dos aspetos que também pode levar ao “desaparecimento” da amizade é a falta de confiança, a exigência e a critica por parte do parceiro: “Antes gostava de contar, ouvia-me e gostava dos conselhos, agora acha sempre que eu podia fazer diferente, critica e não me entende”. O esperar que o outro seja perfeito, que faça tudo bem, leva a desilusão e ao afastamento. Quando não se é ouvido, não apetece partilhar. Escute mais e deixe acontecer! 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

PORQUE NÃO....


O PRIMEIRO ANO


Quando se casa ou se vai viver maritalmente surgem muitas expectativas e fantasias boas. O facto de estarmos enamorados, apaixonados, faz acreditar que o futuro a dois será fácil e para sempre.

A nova casa significa o partilhar, o juntar de “coisas”, objetos, educação, valores, vivencias e personalidades. É esta adaptação que torna os primeiros meses por vezes tão difíceis. É quando há o confronto entre o que é meu, e o que é teu. É quando começamos a formar o que é nosso. Podem ser meses complicados, e a frustração e a desilusão podem aumentar o conflito. É normal sentir estas emoções, fazem parte do amadurecimento do casal. 

Por exemplo a gestão da casa tem a ver com os hábitos da família de origem. Dizer: “a comida da minha mãe é melhor” ou “o meu pai não deixa a roupa espalhada pela casa”, acentuam as diferenças. Cada um leva os seus hábitos para a nova casa esperando que o outro os adote. No entanto, estão a criar uma nova família.

É comum uma das partes ceder para evitar o conflito. Se a cedência for razoável e não trouxer zanga, ótimo. A minha experiencia clínica mostra, contudo, que a zanga vem depois. “Cedi tanto e não fui compensado(a)”. Este sentimento de zanga e injustiça acaba sempre por surgir numa discussão. O mais saudável e equilibrado é a cedência de ambos. Ambos têm que ajustar o que trazem de cada família e o que querem para a sua. 

Num casal uma parte estava habituada a dormir com o estore aberto, a outra só conseguia dormir com o estore completamente fechado. Como era mais fácil habituar-se a dormir com tudo às escuras foi a primeira que cedeu. Porém para esta era insuportável dormir sem que o lençol estivesse bem dobrado, e a outra cedeu também. Conseguiram ajustar a forma como dormem juntos. Este ajustamento só é possível conversando sobre as diferenças, percebendo o que é melhor para NÓS. Quando nenhum dos lados cede seguem-se meses de divergências, de conflito e de sofrimento, o que leva, muitas vezes, à implicância, à zanga e à rutura. São as “pequenas coisas” geridas pelo casal através da divisão de responsabilidades, partilhas, cedências e tolerância que tornam a relação mais saudável. Tentem.

07 Fevereiro 2012 

Publicado em: www.revistadada.com

CUIDAR

Quando penso na capacidade que as pessoas têm para cuidar e serem cuidadas na relação, vem-me a imagem do gato de barriga para cima. Ao contrario do cão, não é comum os gatos colocarem-se nesta posição, a de receber.

Faz pensar, não é! Porque será que só com algumas pessoas os gatos se põem de barriga para cima? Se permitem ser cuidados e mimados? Porque precisam de se sentir seguros e, acima de tudo, confiar que essas pessoas não lhe vão fazer mal.
Curiosamente, acho que o mesmo acontece com algumas pessoas. Pedem que cuidem, que as mimem, exigem-no, e zangam-se quando não o são. Será que se põem a jeito? Será que se põem de barriga para cima?
Por vezes a forma como se pede não é coerente com a postura, como os gatos fazem com algumas pessoas. Fazem ronrom, vão para perto da pessoa, e quando esta decide fazer mimos fogem, ou até deixam com desconfiança, mas estão prontos a fugir.
Faz-me lembrar um casal que funcionava muito bem na gestão dos aspetos práticos da casa e dos filhos, mas entre eles não se cuidavam. Os papeis estavam atribuídos, bem definidos, cada um sabia muito bem o que tinha que fazer, e desempenhava esse papel sem a ajuda do outro. Quando era necessário ajuda para além disso, não o faziam, porque a tarefa não era da sua responsabilidade: era sempre ele quem conduzia. Numa ida para a terapia, ele estava muito cansado e com sono, e pediu à sua mulher que conduzisse por ele. Mas como isso não fazia parte das suas tarefas ela não o fez e entraram em conflito.
Ele pôs-se a jeito de ser cuidado, mas na relação não havia amizade e confiança suficiente para cuidarem um do outro.
A importância da amizade, da partilha, da confiança, da segurança e conforto que o outro nos transmite, faz com que saiba tão bem colocarmo-nos de barriga para cima e ronronar. Parece tão fácil, não é? 

05 Dezembro 2011
Publicada em: www.revistadada.com

1+1=3


A equação não é minha e matematicamente não é possível. Contudo quando falamos de relações amorosas é disso que falamos. Eu+Tu=Nós, como elementos distintos mas tão necessários de ter em atenção para uma relação saudável.


A ideia de “viver feliz para sempre” faz com que o casamento seja visto como o fim e não o início de um percurso a dois. Para conseguir ultrapassar as dificuldades do dia a dia é imprescindível que o casal invista no “nós”. Este aspeto é um dos mais importantes para o enriquecimento da união. 

Não encontrar ou perder o “nós” leva muitas vezes ao conflito, à infidelidade e ao divórcio. A procura deste equilíbrio leva, por outro lado, muitos casais à terapia.

Cada um entende que pode negar, confirmar ou transformar o outro. Como um paciente disse: “Agora que consegui que ela mudasse (após dez anos de discussão), é que me apercebi que estava apaixonado pelo que ela era, e não por aquilo que eu quis que se tornasse”. Curioso não é? Os casais gastam tanto tempo a criticar e a querer mudar o outro que se esquecem de que se enamoraram por aquela pessoa. Querem que o outro se torne mais parecido consigo e não valorizam as diferenças pelas quais se sentem atraídos.

Para que surja um “nós” é necessário que haja dois “eus”. Maduros, que discutam, se zanguem, reclamem, refilem, conversem e façam as pazes. O processo de procura do “nós” é recheado de confusões, desilusões e desentendimentos. É descobrir a dois, é errar a dois, é principalmente crescer a dois, na relação e individualmente. 

Em consultório, um casal confrontado com o “onde anda o nós”, fica surpreendido. Tinham entrado num ciclo vicioso de apontar o dedo um ao outro, ao que cada um queria individualmente, que se esqueceram do que ambos tanto queriam: O Nós.

É através da descoberta de cada um e do “Nós” que se inicia a caminhada a dois para uma relação segura e gratificante. 

11 Novembro 2011 

Publicada em: www.revistadada.com